sexta-feira, 20 de julho de 2012

PEQUENOS GRANDES PECADOS


Por PAULO GOMES

Um colega insiste em dizer que sou pessimista. Minhas análises desprovidas de qualquer referência importante para dar sustentação ao que analiso navegam em águas sem farol a vista. É, talvez, ou certamente ele esteja certo. Não considero que a necessidade de citações ou referenciais teóricos para este exercício de escrita que faço seja tão importante assim para as provocações as quais me proponho. Sou provocado pelo mundo a minha volta e sujeito aos pecados cotidianos de todos nós – meros mortais. Provoco, então.

Espero ansioso os discursos de transformação desse mundo aqui de fora, onde os procrastinadores dos destinos dos homens e mulheres e crianças e idosos, enfim, todas essas gentes comuns que tem um dia de importância a cada quatro anos – um dia (isso é provocação) e as crianças estão isentas dessa importância. Haverá, certamente, pelos donos da verdade, toda uma defesa que lhes é sempre apropriada, pois, como donos da verdade que sempre são, ou se propõem a ser, levantam suas vozes em brados retumbantes – aliás, eles falam na calma do seu equilíbrio inabalável sob as odes da caixinha mágica da televisão.

O mundo na televisão politizada nossa é azul, na placidez psicológica que pode ser atribuída a tal cor. Também, outros a querem cidade avermelhada numa clara evidência a luta cotidiana e necessária a construção de novos dias. Os tons multicoloridos e ausentes de ideologias refletem meramente os discursos, tão somente discursos de busca ou manutenção de poder.

Nesse meu devaneio, procuro identificar onde estou localizado perdido nesse mundinho de pau-a-pique a nos cercar, e que constitui o nome próprio do nosso cercadinho de porteira sempre fechada para o avanço, pois aqui educar não será prioridade. Precisamos continuar a rebolar na vida, e a inteligência não se localizará onde imaginamos que ela possa estar; nem somos inteligentes a ponto de saber onde se localiza o pensamento humano, nem pensamos. Continuemos a dançar, então.

Continuemos ignorantes, sem sabermos para que sirva a vida, senão, para exercício do corpo anencéfalo. Continuemos a dançar todos os ritmos e ouvir todas as letras que não nos dizem nada – se nos dissesse, porém, não compreenderíamos. Falta de inteligência essa minha. É, enfim, estou enclausurado nesses currais envelhecidos, sem qualquer liberdade à vida que se faça fagulha de esperança. Sou, definitivamente, um desesperançoso dos dias todos que haveremos de ter.

Meu amigo estava certo: sou pessimista, não tenho fonte nenhuma para sustentar o que defendo (se é que estou defendendo alguma coisa), sou cheio de quereres e sonhos irrealizáveis, utópico até a base craniana (não tenho cérebro também). Achei esse espaço onde vocifero para os plantonistas da leitura de coisa nenhuma. E, certamente, estarei aqui até que finde a vontade de escrever, de falar, de fazer qualquer coisa que valha a pena. Eis meus pequenos grandes pecados de todos os dias. Compartilho-os com todos os pecadores desse mundinho de atrasos que nos faz também pioneiros. Afinal, temos mania de sermos pioneiros em tudo – inclusive no atraso social, econômico, cultural, enfim, no atraso humano.

UM DIA QUALQUER DE JULHO



Por PAULO GOMES

Ando meio sem ideias para escrever, talvez esteja descobrindo que o que tinha a falar já foi dito e não tenho mais qualquer outro caminho a seguir. Alguns amigos me dizem para enveredar pela poesia – ora, foram experiências momentâneas, não tenho muito os (des) caminhos da palavra. Mentira, falsa modéstia. Acho que até escrevo um pouquinho bem. As vezes minhas ideias são confusas, porém, nada mais confuso que esse nosso mundo de todo dia.

Há de fato uma confusão medonha no nosso mundo. Nesses dias em que estamos cercados de festa por todos os lados e poderíamos ser uma ilha de alegria, percebo justamente o contrário: somos um misto de tristeza e irresponsabilidade que não sabemos onde começa um e termina o outro sentido que possamos dar a nossa vidinha interiorana.

Tudo isso me ocorre em virtude do que testemunhei na porta da emergência do nosso hospital (Viva! Tinha médico!) teve um desfile de pequenas beldades. Meninas lindas com suas roupas escolhidas, criteriosamente, sob o auspicioso gosto do que se diz moda de “periguete” para o deleite dos olhos dos passantes sob a poeira do parque de vaquejadas ou do amontoado de gente procurando gente da feirinha de Sant’Ana. Elas adentravam o setor de emergência despojadas de qualquer dignidade e de qualquer beleza que a cena pudesse propiciar dada a elegância que, certamente, acreditavam elas, estava a encantar os olhos de cada uma das pessoas que também esperavam por atendimento (na verdade elas não tinham consciência de nada, possivelmente não sabiam nem onde estavam).

Não, definitivamente, não havia qualquer resquício de elegância ali. A cena carregava em si uma tristeza de uma sociedade que vicia e que vê no corpo o objeto máximo do consumo. Pequenas meninas, na sua pouca idade e na sua aparência de vida que se fragmentava aos poucos.

Definitivamente, a sociedade do conhecimento está enviesada para alguns, pois o conhecimento a que se sujeitam reside no corpo, no desejo incontido de experimentar tudo, de realizar tudo, de se sujeitar a tudo (e a todos e a qualquer um). Meu olhar é ultrapassado, acho que parei no tempo. Porém, para cada pai e mãe que chegou no desespero de ver as suas filhas num estado lastimável de entrega a esse mesmo mundo, certamente, estou no tempo certo de buscarmos e acharmos caminhos melhores do que temos oferecido a nossa juventude.

O crime que temos que discutir não se faz meramente pelo já explicitado nos nossos jornalões diários sob todas as mídias possíveis, com as imagens mais horríveis, as narrativas mais hediondas. O crime que temos que enfrentar é esse cotidiano que se revela nas portas das urgências dos hospitais onde os jovens adentram sob efeito de tudo que lhes é proibido e que mesmo assim rega as festas mesmo de cunho religioso na sua essência.

Nossa juventude se desfaz aos poucos. Interessante é que adentravam na emergência, num número considerável, meninas ainda na flor da idade, ainda no ritmo da adolescência. E ficava eu pensando das muitas que são amparadas por “amigas” e “amigos” sobre as calçadas da cidade disforme.

Há de fato uma guerra lá fora. Essa guerra terá que ser enfrentada. Convido a cada um dos candidatos a discutir de forma séria o que temos percebido no cotidiano dessa nossa “princesinha enlouquecida”. Isso deve ser feito de forma inequívoca, numa grande discussão que passa por toda a sociedade organizada (como se tivéssemos isso) e que vislumbre possibilidades de extrairmos algo concreto, políticas públicas comprometidas com a devida formação dessa nossa juventude. Tenho dito: nossa prioridade não é o que alguns donos da verdade apregoam aos quatro ventos; minha rua continua sem nenhuma pedra para enfeitá-la, porém, meus filhos estão num bom caminho, queria eu que os outros tantos filhos e filhas dessa cidade também tivessem a mesma oportunidade – o bom caminho.

Não, não reside tão somente na família esse poder de transformação dos filhos e filhas, reside também no mundo aqui fora onde o cérebro é deslocado para qualquer outra parte do corpo que não pensa e que fica sujeito aos “enfincas” da vida ou a qualquer modismo musical que referenda o sexo, a bebida, a depravação como elementos propiciadores do prazer absoluto e isso tudo sob os auspiciosos patrocínios públicos. Educar também se faz através do acesso a cultura que deve enobrecer o espírito humano.

É, verdadeiramente, estou sem ideias. Parei no tempo e o que me proponho a falar desvia-se do interesse de todos. Os alguns que adentram a emergência são muitos filhos e filhas dessa nossa cidade enevoada pela ignorância. Devo eu ir fazer poesia, é o que melhor pior faço. Quanto ao que aqui escrevo e encerro, ao menos por enquanto, fica para deleite dos críticos que devem analisar o conteúdo sob a ótica da língua portuguesa e esquecem a essência do que gostaria de ter escrito aqui. Porém, hoje estava sem ideias.

sábado, 30 de junho de 2012

O PRIMEIRO DIA...


Por Paulo Gomes

Numa dessas tardes frias de junho – assim é que tem sido nesse sertão com face de deserto, com jeitos de contraste, encontrei o amigo e companheiro de estrada (da luta cotidiana das salas de aula), Jorian. Provocou-me a discorrer sobre qualquer coisa que quisesse escrever para alimentar o novo blog do Sinte, Regional Currais Novos. Ultimamente não tenho dado atenção as palavras como deveria fazer mais vezes.
Atento as palavras alheias, aproprio-me, por vezes delas. Consumo a visão de outros que me consomem através de ideias e pensamentos que se coadunam com o meu. Navego nos sites e blogs por essa internet nossa de todos os dias. Procuro, claro, a lucidez nesse mundinho fantasioso da internet. Tento ser seletivo e não me aproprio de tudo, senão, estarei incorrendo nos erros da “vida real” aqui de fora onde a grande mídia constitui-se, mais do que nunca, num poder paralelo ao das instituições que se constroem no contexto exato de uma democracia que ainda almejamos alcançar – vivemos no fascínio de imaginá-la tê-la como nossa. Mas, deixemos de veleidades e partamos para algo que atice esses meus primeiros passos nesse pequeno espaço de opiniões, multiplicação e discussão de ideias e ideais.
 Num tempo inexato de pouco mais de 5 anos, construi minhas primeiras aventuras no mundo da poesia – é importante que todos saibam que não sou poeta, porém, um admirador da palavra escrita e travestida, no meu caso, em arte. Sou um admirador e grande fã da mãe das águas que me afogou na palavra e fez dela um pouco do meu ar, da minha vida – certo que de vez em quando morro e desapareço, por deixá-la de respirá-la, aspirá-la, inspirar-me... Chega de enfeites, hora de propor algo para a alguém que queira o desafio de também navegar nesse mar, sem qualquer vergonha, sem qualquer temor.
Tento agora ser, mesmo que mero escrevinhador, de acertos e desacertos do mundo. Jogo a todos e todas a palavra sob forma de poesia tecida nos dias em que naveguei bastante por esse mar – hoje, começo a navegar em rio sedento de água de chuva que não vem. Façamos, então, tempestades de nós.