Por PAULO GOMES
Um colega insiste em dizer que sou pessimista. Minhas análises
desprovidas de qualquer referência importante para dar sustentação ao que
analiso navegam em águas sem farol a vista. É, talvez, ou certamente ele esteja
certo. Não considero que a necessidade de citações ou referenciais teóricos
para este exercício de escrita que faço seja tão importante assim para as
provocações as quais me proponho. Sou provocado pelo mundo a minha volta e
sujeito aos pecados cotidianos de todos nós – meros mortais. Provoco, então.
Espero ansioso os discursos de transformação desse mundo aqui de
fora, onde os procrastinadores dos destinos dos homens e mulheres e crianças e
idosos, enfim, todas essas gentes comuns que tem um dia de importância a cada
quatro anos – um dia (isso é provocação) e as crianças estão isentas dessa
importância. Haverá, certamente, pelos donos da verdade, toda uma defesa que
lhes é sempre apropriada, pois, como donos da verdade que sempre são, ou se
propõem a ser, levantam suas vozes em brados retumbantes – aliás, eles falam na
calma do seu equilíbrio inabalável sob as odes da caixinha mágica da televisão.
O mundo na televisão politizada nossa é azul, na placidez
psicológica que pode ser atribuída a tal cor. Também, outros a querem cidade
avermelhada numa clara evidência a luta cotidiana e necessária a construção de
novos dias. Os tons multicoloridos e ausentes de ideologias refletem meramente
os discursos, tão somente discursos de busca ou manutenção de poder.
Nesse meu devaneio, procuro identificar onde estou localizado
perdido nesse mundinho de pau-a-pique a nos cercar, e que constitui o nome
próprio do nosso cercadinho de porteira sempre fechada para o avanço, pois aqui
educar não será prioridade. Precisamos continuar a rebolar na vida, e a
inteligência não se localizará onde imaginamos que ela possa estar; nem somos
inteligentes a ponto de saber onde se localiza o pensamento humano, nem pensamos.
Continuemos a dançar, então.
Continuemos ignorantes, sem sabermos para que sirva a vida, senão,
para exercício do corpo anencéfalo. Continuemos a dançar todos os ritmos e
ouvir todas as letras que não nos dizem nada – se nos dissesse, porém, não
compreenderíamos. Falta de inteligência essa minha. É, enfim, estou
enclausurado nesses currais envelhecidos, sem qualquer liberdade à vida que se
faça fagulha de esperança. Sou, definitivamente, um desesperançoso dos dias
todos que haveremos de ter.
Meu amigo estava certo: sou pessimista, não tenho fonte nenhuma para
sustentar o que defendo (se é que estou defendendo alguma coisa), sou cheio de
quereres e sonhos irrealizáveis, utópico até a base craniana (não tenho cérebro
também). Achei esse espaço onde vocifero para os plantonistas da leitura de
coisa nenhuma. E, certamente, estarei aqui até que finde a vontade de escrever,
de falar, de fazer qualquer coisa que valha a pena. Eis meus pequenos grandes
pecados de todos os dias. Compartilho-os com todos os pecadores desse mundinho
de atrasos que nos faz também pioneiros. Afinal, temos mania de sermos
pioneiros em tudo – inclusive no atraso social, econômico, cultural, enfim, no
atraso humano.