Por PAULO GOMES
Ando meio sem ideias para escrever, talvez esteja descobrindo que o
que tinha a falar já foi dito e não tenho mais qualquer outro caminho a seguir.
Alguns amigos me dizem para enveredar pela poesia – ora, foram experiências
momentâneas, não tenho muito os (des) caminhos da palavra. Mentira, falsa
modéstia. Acho que até escrevo um pouquinho bem. As vezes minhas ideias são
confusas, porém, nada mais confuso que esse nosso mundo de todo dia.
Há de fato uma confusão medonha no nosso mundo. Nesses dias em que
estamos cercados de festa por todos os lados e poderíamos ser uma ilha de
alegria, percebo justamente o contrário: somos um misto de tristeza e
irresponsabilidade que não sabemos onde começa um e termina o outro sentido que
possamos dar a nossa vidinha interiorana.
Tudo isso me ocorre em virtude do que testemunhei na porta da
emergência do nosso hospital (Viva! Tinha médico!) teve um desfile de pequenas
beldades. Meninas lindas com suas roupas escolhidas, criteriosamente, sob o
auspicioso gosto do que se diz moda de “periguete” para o deleite dos olhos dos
passantes sob a poeira do parque de vaquejadas ou do amontoado de gente
procurando gente da feirinha de Sant’Ana. Elas adentravam o setor de emergência
despojadas de qualquer dignidade e de qualquer beleza que a cena pudesse propiciar
dada a elegância que, certamente, acreditavam elas, estava a encantar os olhos
de cada uma das pessoas que também esperavam por atendimento (na verdade elas
não tinham consciência de nada, possivelmente não sabiam nem onde estavam).
Não, definitivamente, não havia qualquer resquício de elegância ali.
A cena carregava em si uma tristeza de uma sociedade que vicia e que vê no
corpo o objeto máximo do consumo. Pequenas meninas, na sua pouca idade e na sua
aparência de vida que se fragmentava aos poucos.
Definitivamente, a sociedade do conhecimento está enviesada para
alguns, pois o conhecimento a que se sujeitam reside no corpo, no desejo
incontido de experimentar tudo, de realizar tudo, de se sujeitar a tudo (e a
todos e a qualquer um). Meu olhar é ultrapassado, acho que parei no tempo.
Porém, para cada pai e mãe que chegou no desespero de ver as suas filhas num
estado lastimável de entrega a esse mesmo mundo, certamente, estou no tempo certo
de buscarmos e acharmos caminhos melhores do que temos oferecido a nossa juventude.
O crime que temos que discutir não se faz meramente pelo já
explicitado nos nossos jornalões diários sob todas as mídias possíveis, com as
imagens mais horríveis, as narrativas mais hediondas. O crime que temos que
enfrentar é esse cotidiano que se revela nas portas das urgências dos hospitais
onde os jovens adentram sob efeito de tudo que lhes é proibido e que mesmo
assim rega as festas mesmo de cunho religioso na sua essência.
Nossa juventude se desfaz aos poucos. Interessante é que adentravam
na emergência, num número considerável, meninas ainda na flor da idade, ainda
no ritmo da adolescência. E ficava eu pensando das muitas que são amparadas por
“amigas” e “amigos” sobre as calçadas da cidade disforme.
Há de fato uma guerra lá fora. Essa guerra terá que ser enfrentada.
Convido a cada um dos candidatos a discutir de forma séria o que temos
percebido no cotidiano dessa nossa “princesinha enlouquecida”. Isso deve ser
feito de forma inequívoca, numa grande discussão que passa por toda a sociedade
organizada (como se tivéssemos isso) e que vislumbre possibilidades de
extrairmos algo concreto, políticas públicas comprometidas com a devida
formação dessa nossa juventude. Tenho dito: nossa prioridade não é o que alguns
donos da verdade apregoam aos quatro ventos; minha rua continua sem nenhuma
pedra para enfeitá-la, porém, meus filhos estão num bom caminho, queria eu que
os outros tantos filhos e filhas dessa cidade também tivessem a mesma oportunidade
– o bom caminho.
Não, não reside tão somente na família esse poder de transformação
dos filhos e filhas, reside também no mundo aqui fora onde o cérebro é
deslocado para qualquer outra parte do corpo que não pensa e que fica sujeito
aos “enfincas” da vida ou a qualquer modismo musical que referenda o sexo, a
bebida, a depravação como elementos propiciadores do prazer absoluto e isso
tudo sob os auspiciosos patrocínios públicos. Educar também se faz através do
acesso a cultura que deve enobrecer o espírito humano.
É, verdadeiramente, estou sem ideias. Parei no tempo e o que me
proponho a falar desvia-se do interesse de todos. Os alguns que adentram a
emergência são muitos filhos e filhas dessa nossa cidade enevoada pela
ignorância. Devo eu ir fazer poesia, é o que melhor pior faço. Quanto ao que
aqui escrevo e encerro, ao menos por enquanto, fica para deleite dos críticos
que devem analisar o conteúdo sob a ótica da língua portuguesa e esquecem a essência
do que gostaria de ter escrito aqui. Porém, hoje estava sem ideias.
Nenhum comentário:
Postar um comentário