sexta-feira, 20 de julho de 2012

UM DIA QUALQUER DE JULHO



Por PAULO GOMES

Ando meio sem ideias para escrever, talvez esteja descobrindo que o que tinha a falar já foi dito e não tenho mais qualquer outro caminho a seguir. Alguns amigos me dizem para enveredar pela poesia – ora, foram experiências momentâneas, não tenho muito os (des) caminhos da palavra. Mentira, falsa modéstia. Acho que até escrevo um pouquinho bem. As vezes minhas ideias são confusas, porém, nada mais confuso que esse nosso mundo de todo dia.

Há de fato uma confusão medonha no nosso mundo. Nesses dias em que estamos cercados de festa por todos os lados e poderíamos ser uma ilha de alegria, percebo justamente o contrário: somos um misto de tristeza e irresponsabilidade que não sabemos onde começa um e termina o outro sentido que possamos dar a nossa vidinha interiorana.

Tudo isso me ocorre em virtude do que testemunhei na porta da emergência do nosso hospital (Viva! Tinha médico!) teve um desfile de pequenas beldades. Meninas lindas com suas roupas escolhidas, criteriosamente, sob o auspicioso gosto do que se diz moda de “periguete” para o deleite dos olhos dos passantes sob a poeira do parque de vaquejadas ou do amontoado de gente procurando gente da feirinha de Sant’Ana. Elas adentravam o setor de emergência despojadas de qualquer dignidade e de qualquer beleza que a cena pudesse propiciar dada a elegância que, certamente, acreditavam elas, estava a encantar os olhos de cada uma das pessoas que também esperavam por atendimento (na verdade elas não tinham consciência de nada, possivelmente não sabiam nem onde estavam).

Não, definitivamente, não havia qualquer resquício de elegância ali. A cena carregava em si uma tristeza de uma sociedade que vicia e que vê no corpo o objeto máximo do consumo. Pequenas meninas, na sua pouca idade e na sua aparência de vida que se fragmentava aos poucos.

Definitivamente, a sociedade do conhecimento está enviesada para alguns, pois o conhecimento a que se sujeitam reside no corpo, no desejo incontido de experimentar tudo, de realizar tudo, de se sujeitar a tudo (e a todos e a qualquer um). Meu olhar é ultrapassado, acho que parei no tempo. Porém, para cada pai e mãe que chegou no desespero de ver as suas filhas num estado lastimável de entrega a esse mesmo mundo, certamente, estou no tempo certo de buscarmos e acharmos caminhos melhores do que temos oferecido a nossa juventude.

O crime que temos que discutir não se faz meramente pelo já explicitado nos nossos jornalões diários sob todas as mídias possíveis, com as imagens mais horríveis, as narrativas mais hediondas. O crime que temos que enfrentar é esse cotidiano que se revela nas portas das urgências dos hospitais onde os jovens adentram sob efeito de tudo que lhes é proibido e que mesmo assim rega as festas mesmo de cunho religioso na sua essência.

Nossa juventude se desfaz aos poucos. Interessante é que adentravam na emergência, num número considerável, meninas ainda na flor da idade, ainda no ritmo da adolescência. E ficava eu pensando das muitas que são amparadas por “amigas” e “amigos” sobre as calçadas da cidade disforme.

Há de fato uma guerra lá fora. Essa guerra terá que ser enfrentada. Convido a cada um dos candidatos a discutir de forma séria o que temos percebido no cotidiano dessa nossa “princesinha enlouquecida”. Isso deve ser feito de forma inequívoca, numa grande discussão que passa por toda a sociedade organizada (como se tivéssemos isso) e que vislumbre possibilidades de extrairmos algo concreto, políticas públicas comprometidas com a devida formação dessa nossa juventude. Tenho dito: nossa prioridade não é o que alguns donos da verdade apregoam aos quatro ventos; minha rua continua sem nenhuma pedra para enfeitá-la, porém, meus filhos estão num bom caminho, queria eu que os outros tantos filhos e filhas dessa cidade também tivessem a mesma oportunidade – o bom caminho.

Não, não reside tão somente na família esse poder de transformação dos filhos e filhas, reside também no mundo aqui fora onde o cérebro é deslocado para qualquer outra parte do corpo que não pensa e que fica sujeito aos “enfincas” da vida ou a qualquer modismo musical que referenda o sexo, a bebida, a depravação como elementos propiciadores do prazer absoluto e isso tudo sob os auspiciosos patrocínios públicos. Educar também se faz através do acesso a cultura que deve enobrecer o espírito humano.

É, verdadeiramente, estou sem ideias. Parei no tempo e o que me proponho a falar desvia-se do interesse de todos. Os alguns que adentram a emergência são muitos filhos e filhas dessa nossa cidade enevoada pela ignorância. Devo eu ir fazer poesia, é o que melhor pior faço. Quanto ao que aqui escrevo e encerro, ao menos por enquanto, fica para deleite dos críticos que devem analisar o conteúdo sob a ótica da língua portuguesa e esquecem a essência do que gostaria de ter escrito aqui. Porém, hoje estava sem ideias.

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